A minha nova colina e o Atelier Royal

Começou o Outono! Custa sempre o primeiro dia em que calço meias depois de um verão descalça em tantos chãos diferentes. Descalça na calçada quando vou pôr o lixo na rua, na areia molhada ao pé do mar, na terra batida a sair das praias da Costa da Caparica, na relva dos jardins, no chão do aeroporto e até no deserto de Israel.

No último dia antes da primeira chuva em Lisboa, a humidade era tal que os meus pés já escorregavam dentro das sandálias. Descalcei-me e desci a viela íngreme do elevador da Glória descalça, sentindo o chão de Lisboa directamente nos meus pés. Continuei ao longo da Avenida da Liberdade, descalça na calçada, até encontrar uma sapataria, onde entrei e me calcei. Que boa sensação! Descalça na cidade! “Ó menina, olhe os vidros!” – foram gritando as velhinhas que varriam as entradas das casas e outras que estavam à janela a ver quem passava. Mas quais vidros? Há assim tanta gente a partir garrafas na rua? Cheguei a casa sem cortes no pé e no dia seguinte lá veio a chuva.

Chegou o Outono! Automaticamente começo a sonhar com Paris e a trautear músicas de Natal. Parece que estou sincronizada com as lojas de decoração, que todos os anos me apanham desprevenida com decorações natalícias muito antes do tempo. Na rua, as pessoas andam amuadas porque “ainda agora era Verão” e ninguém em Lisboa sabe lidar com a chuva. Os fins de tarde nas esplanadas são substituídos pelas casas de chá e pelos programas caseiros e na Baixa os vendedores de morangos e gelados de repente vendem castanhas quentinhas, que enchem Lisboa de um fumo outonal com aroma de São Martinho.

À procura de novas inspirações decidi instalar-me numa das colinas mais inspiradoras de Lisboa. O Príncipe Real! O sol entra pela janela gigante e aquece o soalho. A minha mesa, branca imaculada, pede-me que alguma coisa seja criada. Lá fora, as fachadas coloridas, as lojas de autor e os cafés (“snack-bar” ou à moda de Paris) chamam por mim. À hora do almoço, vou à procura da melhor sopa da rua e encontro sempre alguém inesperado. A minha cabeça anda numa roda viva de ideias e com desejos compulsivos de fazer acontecer. Mil projectos, mil inspirações. Preciso de ter os pés assentes na terra! Todo este cenário me inspira. E debaixo da janela do Atelier Royal só passam personagens dignas de histórias só para elas.

Ao fim da tarde, passo pelo Chiado. A nova Chocolataria Equador convida-me a entrar e a levar um presente para alguém, tal é o charme da decoração e a sofisticação das caixas e dos postais, e tudo criado em Portugal! Ao chegar ao Camões, e mesmo com chuva, a luz de Lisboa cega-me de deslumbramento. No outro dia, a caminho da Feira da Ladra, o comentário do rapaz Alemão sentado atrás de mim no eléctrico, ao passar as Portas do Sol, era “Wass für ‘ne Stadt!” (“What a city!”) E é mesmo! Lisboa tem esta habilidade, de renovar a minha capacidade de espanto, todos os dias. Sinto-me como no ano de 2005, quando cá cheguei e fui viver para a Graça. Passava os dias no Chiado e as noites em Alfama, a ouvir uma Carminho ainda no início de percurso, mas nem por isso menos tocante e avassaladora! Rapidamente me apoderei de alguns lugares e programas, como o vinho verde na Adega do Rossio e as Terças no Lusitano, com a Roda de Choro de Lisboa, que ficaram “meus” até hoje.

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No caminho para casa, subo a Rua das Portas de Santo Antão, tão familiar por causa das aulas de salsa no Atheneu, naqueles anos de faculdade. “Olá menina, como vai?”, ao passar na Ginjinha sem Rival e nas esplanadas onde os turistas se deliciam com “typical Portuguese food”. Outros, que não me conhecem, ainda perguntam “Dinner?”, sempre em Inglês, por causa dos cabelos loiros. E chego a Santa Marta feliz com a minha nova colina e o Atelier Royal!

A minha nova colina e o Atelier Royal

Chegada da Índia: um mês depois

“Para onde é, menina?”, “Para a rua de Santa Marta”. Que bem me soube dizer isto! Encostei-me para trás e respirei fundo. Curiosamente, não senti cheiro que me enojasse, nem os pulmões a reagirem à poluição. Abri a janela e pus a cabeça de fora. Estava cansada. Muito cansada. E com uma ânsia inquietante de sentir algo que fosse indiscutivelmente Português, que me desse um beliscão interior e me convencesse de que estava realmente de volta a casa. A conversa de circunstância com o taxista não teve esse efeito. Parecia antes um dos delírios que tinha tido naquela cama de hospital, já adaptada à forma do meu corpo, no Gautham Hospital, em Cochim. Estava há 6 dias fechada num quarto que, se não fossem as baratas e osgas, podia ser um quarto em Portugal. E houve momentos em que achei mesmo que era.

O ar que eu inspirava era tão puro, as ruas tão silenciosas, o céu tão azul, que me comovi. O taxista calou-se e observava-me do espelho retrovisor. E eu não queria acreditar que já não estava na Índia. Ainda há umas horas atrás (provavelmente umas 40), estava a jantar num restaurante maravilhoso, no rooftop de um prédio altíssimo, no meio do caos de Bombaim, a saborear as quatro semanas de viagem que tinham passado. E, há menos algumas, a dormir numa cama improvisada no aeroporto do Dubai, com uma manta e uma almofada roubadas subtilmente à primeira classe do meu voo da Emirates e já contaminadas com o cheiro daquele repelente intragável que comprei numa espécie de farmácia de praia em Goa.

Nem quando cheguei à minha casinha, tão imaculada (e sem bichos!), consegui acreditar que tudo aquilo tinha acabado. No sofá, ainda estava espalhada alguma roupa de Verão que, à última, tinha decidido não pôr na mala. E, em cima da mesa, estava despejado o conteúdo da minha carteira, desnecessário para uma viagem de mochila às costas. Senti simultaneamente saudade e repulsa. E fiquei assim, sentada no sofá em silêncio, rodeada de malas e sacos, enojada com o cheiro do repelente que agora se fazia sentir ainda mais, em contraste com o cheiro-a-nada da minha casa imaculada. Eram 4 da tarde.

Tinha dito ao mundo que chegava no dia 23. Quando olhei para o telemóvel, às 7 da tarde, percebi que ainda era dia 22, e fiquei contente por poder saborear mais 24 horas “invisível”. Liguei ao Zé – que àquela hora devia estar a sair do trabalho – cumprindo, assim, quase sem me aperceber, um ritual diário de um dia de semana normal em Lisboa. E, como em qualquer outro dia do ano, o Zé veio em meu auxílio e levou-me à “nossa” tasca. Ainda nem era hora de jantar e já estávamos a beber vinho tinto carrascão, a comer uma sopa de legumes e um bitoque com ovo! Tentei não me lembrar que, poucos dias antes, tinha estado internada por causa de uma infecção grave nos intestinos…e comi como se não houvesse amanhã.

O Zé estava igual. Também só tinha passado um mês. E, ignorando o meu visível cansaço, fez-me uma proposta completamente indecente e irrecusável: “Bora aos fados?”

Entrei em Alfama como quem entra num bairro lisboeta pela primeira vez, fascinada com a beleza e intrigada pelos becos e as escadinhas. Ainda era cedo e na Mesa de Frades ainda não tinham começado a cantar. Sentados numa mesinha escondida, pedimos mais um jarro de tinto da casa e fomos conversando lentamente, como um casal de velhinhos.

Comecei a lembrar-me de como tinha desejado estar ali, quando estava ligada às máquinas, naquela cama de hospital. Sem internet, sem televisão e sem iPod, a única coisa que me ia fazendo companhia eram os fados cantados pelo Zezé e pelo Rodrigo, gravados por mim no iPhone em noites invernosas, naquela capelinha de Alfama onde agora bebia, melancólica, o meu vinho.

“Olha, acabou de entrar o Zezé”. De repente a melancolia desapareceu e senti-me secretamente entusiasmada. Esperámos mais uns minutos antes de sair do esconderijo e cumprimentar os suspeitos do costume que entretanto tinham chegado. Da minha parte, exigia alguma preparação, especialmente para conseguir disfarçar a minha felicidade não contextualizada.

O cansaço disfarçou tudo o que havia a disfarçar e, felizmente, até inibiu os que estavam à minha volta de me fazer a pergunta mais temida da noite: “Como é que foi?”.

Cantou-se o fado e cantou-se muito bem! Tão bem, que só saí de Alfama às 4 da manhã. E foi algures no meio daquela noite, já no limite do meu cansaço, que senti finalmente que tinha chegado a casa.

Passou um mês desde esse dia da minha chegada. Sinto-me finalmente preparada para, com a distância necessária, olhar para a minha viagem à Índia e para a viagem interior que ela implicou.

Stay tuned and be glamourous!

Chegada da Índia: um mês depois