Baçaim, por Ana Ortins Pina

O dia da visita a Baçaim teve um parto difícil que em nada permitia adivinhar o seu delicioso desfecho. Depois de uma jornada a esperar, desesperar e calcorrear o aeroporto do Dubai, começamos o dia 24 de Fevereiro de madrugada com um libertador voo Dubai – Mumbai. Fechamos os olhos e imaginado-nos num leito confortável, numa praia do mar arábico, ao som do fado.

O pior tinha passado… Pensávamos nós. Mas em breve aprenderíamos, da forma mais duramente libertadora, que, na nossa viagem pela Índia portuguesa, apenas as vacas e o infinito prazer da descoberta são garantidos. Saímos do avião, esperamos pelas malas e vamos discutindo os planos do dia. E esperamos. Esperamos até nos ser fornecida pelo Staff uma infame lista das malas que tinham ficado em Dubai – todas menos as da Isabel e da Inês, por sinal as únicas viajantes que estariam cabalmente prevenidas pela bagagem de mão. As malas estariam esquecidas? Perdidas? Ignoradas? Não. Ostensivamente identificadas, e não transportadas. Uma vez cumpridas as formalidades burocráticas, engolimos o sapo e mantivemos o ingénuo ânimo de vermos as malas em breve…

Inspiramos curiosos a brisa indiana, quais miúdos rebeldes que fumam o seu primeiro cigarro. Mal sabíamos nós que a Índia seria tão mais viciante que qualquer charro. Somos recebidos pelo Parveen, que nos leva a um hotel próximo para pequeno-almoço e banho. Daqui seguimos de autocarro para o primeiro destino.

Seria mais fácil ignorar um elefante cor de rosa com asas do que ignorar o que se passava à nossa volta. Através das janelas do autocarro, deixamo-nos maravilhar pelas primeiras impressões da Índia. O trânsito caótico, em movimento incessante sem qualquer colisão. O buzinar como cumprimento, caloroso aviso e modo de vida. Os amontoados de lixo em perfeita harmonia com as casas e as pessoas. Os brilhantes e luminosos adereços decorativos em tudo. A pobreza das barracas com antenas parabólicas. Saris, turbantes, malas Chanel e chinelos. Muçulmanos, hindus e cristãos, de mãos dadas. Tirar uma fotografia a uma moto com 4 pessoas em cima dela e ver a alegre curiosidade de um indiano transeunte, divertido pelo nosso interesse, gesticulando 4 dedos para nós… amorosa vingança do chinês. O mais estranho é a enorme diversidade de tudo e todos, em todo o esplendor de identidade, sem fusões mas sim em pacífico convívio, como se nada mais natural e expectável houvesse.Imagem

Chegamos a Baçaim a hora amena, numa tarde de céu azul na Índia. Baçaim foi uma cidade muralhada, de grande dimensão (mais de 100 ha) construída pelos portugueses no século XVI para responder à necessidade de abastecimento de provisões para outras feitorias. Outrora terra de fidalgos a quem eram concedidos os ‘prazos’, foi no século XVIII cedida aos matacas, povo indígena local, para firmar um acordo de paz. Estes devem ter ficado felizes, mas não pareceu porque, uma vez em sua posse, abandonaram Baçaim, por receio dos seus presumíveis ‘fantasmas’.

Exploramos as ruínas de Baçaim, quais Laras Croft em Tomb Raider. Na Igreja da Imaculada Conceição, dois túmulos de ‘Donas’ que tiveram importância na gestão de Baçaim. Portugal foi pioneiro em tanto, mas não deixa de ser surpreendente ver duas mulheres no topo da ‘corporate ladder’ do século XVII. Na Igreja dos Jesuítas, e na sua passagem para o sítio onde estaria a escola, vários exemplos de simbiose indo-portuguesa, como as flores que simbolizam pureza para os indianos, no pórtico da igreja.

Nem a maratona de 48h de viagem nem a improvável desilusão com a Emirates Airline, limitaram o impacto de Baçaim. Que graça saber que aquelas muralhas nas quais hoje ganham raízes árvores gigantes, foram ontem casa dos nossos antepassados, e que a sua igreja é agora campo de criquete em dias de sol escaldante. Apesar de sentir nostalgia pela decadência dos tempos idos, senti-me comovida pela nossa presença lá, unindo dois tempos tão distintos.

Sendo este um destino geralmente pouco interessante, a não ser para um grupo de sonhadores como nós, também o Mahipal se encantou com Baçaim, e ouviu o Peu com atenção. E, como nós, estava lá também um encantador grupo de meninas da escola com uniforme de saia, camisa e laçarote no cabelo, algumas descalças, mas nem sempre em ‘fila indiana’.Imagem

Os indianos estão naquele lugar para jogar criquete, para cortar troncos que arrastam em grupo, para partir pedra que depois vendem, ou simplesmente para estar. E de quando em longe, aparecem por Baçaim turistas… Então, animados e de iPhone em riste, os indianos descalços fotografam de volta os turistas que os acham interessantes e diferentes. Um fogo cruzado fotográfico com um povo tão orgulhoso quanto humilde, tão curioso quanto envergonhado, tão interessado quanto despojado, que parece viver contente para gozar o que tem e fazer o que pode…

Deixamos Baçaim de autocarro em direcção a Damão. Chegamos à noite, por um feliz atraso do programa, permitindo ver o forte de Damão Grande etereamente iluminado. Damão foi escolhido pelos nossos antepassados, por ser um dos mais importantes entrepostos das grandes rotas comerciais do Oriente. O tiro saiu pela culatra porque, uma vez conquistado e estabelecida a feitoria, as grandes rotas foram desviadas… obrigando os portugueses a reinventar o seu comércio.

Entramos em Damão Grande pela pequena porta do mar, defendida por baluartes, para uma cidade desenhada de forma geométrica, com ruas paralelas, e quarteirões tão familiares. Uma solução urbanística reproduzida nas várias colónias portuguesas, e mais tarde adoptada na Lisboa pombalina. E agora, qual é a colónia?

Vimos em Damão o departamento oficial do Governo da Índia, edifício tipicamente colonial em que permaneceu, orgulhosamente, à porta, o escudo português. Claro, por que não? De repente, uma voz inesperada: “para ali é a Porta da Terra, para acolá a Porta do Mar”. Um guia turístico? Um angolano em férias? Não! Era um compatriota deste lado do mundo. O primeiro ‘indiano português’ que conhecemos, a primeira vítima das reveladoras entrevistas do Peu. Câmara luzes acção – copo de cerveja na mão, esguio, de tez achocolatada, o Francisco Lopes dissertou divertido sobre a sua história. Depois vimos a casa do filho, com uma placa ‘Miguel Lopes, advogado’. Que encontro irreal. Como explicar o demasiado improvável? Como é que há 500 anos, um sonhador se lançou ao mar de monstros, de astrolábio na mão… E hoje o filme digital de uma entrevista em português perfeito, de imediato está na rede global.

O dia terminou com a chegada ao hotel de Damão, onde ainda haveria para resolver a primeira das trocas de quartos. Fizemos tenção de jantar. O que parecia um simples pedido transformou-se numa animada troca de palavras, gestos e acenos de cabeça, envolvendo todo o staff. Correr tudo bem é no mínimo suspeito, na Índia! O homem da noite foi o simpático e um pouco trengo ‘artista de Bollywood’ que nos ensinou as nossas primeiras palavras em hindi.

Um dia em cheio, ‘wel-com to India’!Imagem

Baçaim, por Ana Ortins Pina