Madonna dei Pellegrini, por Magda Cardoso de Matos

Caravaggio, tomei hoje consciência, rompeu com uma série de cânones no que respeita à representação de personagens bíblicas. Ao contrário de práticas anteriores, não as retratou como seres belos e irrepreensíveis, mas como gente perfeitamente comum.

Este convite para contemplar e rezar a partir da obra Madonna dei Pellegrini, Deus sabe, veio de encontro a uma das minhas interrogações: se O procurarmos apenas e só entre o que é suposto segundo os critérios dos homens, não corremos sérios riscos de Lhe virar a cara?

Olhei para o quadro e procurei ver com o coração. A primeira ideia que me trespassou o pensamento foi a de que Jesus e Sua Mãe, Maria, são como que um dueto improvável. Não me refiro, naturalmente, à relação Mãe-Filho, mas porque aparecem onde menos e a quem menos se espera.

Mas se estão sempre presentes na vida de cada um, porque se deixam ver tão raras vezes?

Talvez porque só os portadores de um coração simples – não donos, porque será tão mais simples quanto mais entregue aos Outros, os Cristos que se atravessam na vida de cada um – serão capazes de O ver.

O convite que este “dueto” nos dirige de nos assumirmos como peregrinos não é apelativo, se nos quedarmos nas condições de fragilidade e abandono que lhe aparecem associadas. Para nos pormos a caminho, precisamos de nos despojar das vestes que o mundo propõe, tantas vezes em troca de uma aceitação que acreditamos ser substituta do Seu Amor.

Encarnar a condição de peregrino é ter a coragem de prosseguir na condição de servos, para escândalo dos circunstantes, que assim nos deixemos olhar, paremos para O adorar e por fim estendamos o braço Àquele que nos quer resgatar da nossa maior pobreza: a falta de sede deste Amor.

Toca-me profundamente a ideia de que Caravaggio, por meio do seu percurso (mais que) tumultuoso terá intuído que o preço da Eternidade não é a infalibilidade.

Quem sabe, porque caiu bem fundo e se viu privado da sua auto-suficiência, alcançou que apenas Ele tem a capacidade de encher de Luz a nossa escuridão mais profunda. Ele cuida de cada um tal como está. Tal como é. Venha de onde vier. Tenha feito o que tiver. Haja, sim, em cada um, desejo de encontro e vontade de construir o futuro. Passo a passo. Com Ele e com Maria.

Os trajes simples que se observam no quadro fazem com que me assalte ainda a ideia de que as roupagens com que nos cobrimos (e o tempo que perdemos a planeá-las…) são, tantas vezes, um impedimento a que Ele possa chegar às nossas feridas, tocá-las e curá-las. Virá daí o Verbo “atrapalhar”?

Roma, Basílica de Santo Agostinho, 29 de Abril de 2014

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