Wilson – o rosto de Diu, por Sara Fontes

O quarto dia da viagem começou bem cedo. Deixámos Damão para regressar a Bombaim, um percurso de autocarro, a velocidade média de 50km/h, acidentado por lombas de 10 em 10 metros! Pela janela tentávamos absorver avidamente a Índia de fora das fortalezas portuguesas… casas e barracas construídas aleatoriamente, imenso plástico e pilhas de cartão, outdoors desbotados, pó, cães e vacas deambulantes, motas e riquexós sobrelotados, buzinas incessantes, crianças em uniforme a caminho da escola, gente que nos olha nos olhos.

Uma hora de voo separou-nos da barulhenta e superpovoada Bombaim de Diu, um paraíso de praia e palmeiras. O nosso hotel, fora do centro da cidade, lembrava um resort mediterrânico, não fossem os altares de Krishna, Ganesha, o incenso e o amoroso e intrigante acenar de cabeça dos indianos. O peixe grelhado que almoçámos num alpendre fresco com telhado de palha e vista para a baía de Diu transportava-me inevitavelmente para uma praia portuguesa. Depois abria os olhos e apercebia-me do olhar de espanto quando queríamos tudo non-spicy ou pedíamos uma coca-cola zero… you can’t take sugar out of coca!

Em Diu percebemos que a nossa viagem não estava a ser preparada apenas por nós.  Assim que soube da chegada de um grupo de portugueses, Wilson das Mercês Pedro Almeida pediu dispensa do trabalho para poder acompanhar-nos.Imagem

Quando estão portugueses em Diu, diz não perder a oportunidade de falar português e de partilhar o gosto pela música portuguesa. Que bem que nos cantou a “Morena oh morenita” do Marco Paulo! Wilson tem um sorriso contagiante e foi o melhor dos anfitriões: pelas ruas de Diu apresentou-nos aos seus amigos cristãos, muçulmanos, hindus e aos falantes de português, sempre atento à nossa segurança, para não sermos atropelados por uma mota, um riquexó ou uma vaca! Ajudou a solucionar todos os nossos caprichos, foi filmado para a câmara implacável do Peu, respondeu a todas as nossas perguntas, contou-nos a história da sua vida e recebeu-nos em sua casa. Apesar de ter apenas 10 anos quando os portugueses deixaram Diu, tem um empenho comovente na preservação da língua, do património, da religião e das tradições deixadas pelos portugueses. A melhor prova dessa herança foi por ele próprio desvendada: Como poderia cantar oh morena morenita se não fosse cristão?! Vive com a mulher, o filho e os pais, e todos falam português em casa. Preocupa-o o número de famílias cristãs de Diu a diminuir (actualmente são 150). Sabe que precisam de restaurar a sua igreja, a de São Paulo, linda, mas onde também entram pombos, falta tinta nas paredes, a arte está desprotegida e pede cuidado diferenciado. Tem planos de visitar Portugal daqui a 5 anos… para já está a tratar do passaporte português. O Wilson tornou-se o rosto de Diu e a nossa relação com ele indissociável da relação com a cidade.
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As ruas do centro de Diu são pequenas, mas atravessá-las parecia demorar horas! São um verdadeiro festim para os sentidos: as cores dos saris ondulantes, as especiarias que perfumam o ar, os riquexós “buzinantes” decorados com divindades hindus, flores e cachecóis da seleção portuguesa, a herança que íamos desvendando em varandas, portas, fechaduras e ferrolhos, crucifixos e inscrições. Cuidado com a vaca! Éramos os únicos visitantes daquelas bandas, observados atentamente pelos locais que encostados à ombreira da porta de casa ou da loja nos cumprimentavam “Olá estás bom?” Alguns não sabiam dizer mais nada, mas achavam graça à nossa cara entusiasmada.Imagem

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