Kizomba e o Senhor das Raspadinhas

Dois turistas ofegantes a meio da Calçada da Glória. Passo por eles, sem me distrair, para não perder o ritmo. Estou quase quase a chegar aos elevadores, que estão parados um bocadinho acima do meio da Calçada, porque estão a ser restaurados. Já começo a ouvir a kizomba dos homens das obras e já os sinto a espreitar pela janela para me dizer bom dia ou mandar um piropo. Não me posso distrair. A minha respiração já está demasiado acelerada. Parar seria morrer. Seria começar todo o processo do início. Despir o casaco e enfiá-lo na carteira, preparar-me psicologicamente para a inclinação mais obscena de Lisboa e começar a andar. Consegui passar os elevadores em obras. Agora só falta um bocadinho. A pior parte de todas! À esquerda, o porteiro da Santa Casa, sentado no seu mini-gabinete forrado de lotarias e raspadinhas, tenta mais uma vez, em vão, estabelecer contacto com aquela transeunte que todos os dias por ali passa e olha para ele com ar desesperado, como quem acabou de escapar a uma explosão na Faixa de Gaza. Não consigo parar. Olho para ele, mas não me sai o “Bom dia” tão aguardado. Olho em frente. Estou quase. Na rua de São Pedro de Alcântara, turistas abrandam e sorriem para mim, como quem diz “Força!”. “We, in Lisbon, are used to walking up hills on a daily basis”, respondo-lhes eu mentalmente. E com a força e o fôlego que me resta, enfrento valente os terríficos 8 degraus do fim da Calçada, que me separam da bonança, onde o vento sopra e os passarinhos cantam. As minhas pernas tremem de alegria pelo exercício feito e subo esta rua viva, de inclinação mais aceitável, acordada e com boa disposição, até chegar ao atelier. Ao passar no Miradouro, admiro esta Lisboa do sol e das colinas e lembro-me das mil razões que tenho para agradecer as coisas boas da minha vida. O sol da manhã tem este efeito transformador, de me fazer ver o lado bom de tudo. Pelo menos até às três da tarde, hora em que a moleza pós-almoço se apodera de mim. E agora vou trabalhar.

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