Chegada da Índia: um mês depois

“Para onde é, menina?”, “Para a rua de Santa Marta”. Que bem me soube dizer isto! Encostei-me para trás e respirei fundo. Curiosamente, não senti cheiro que me enojasse, nem os pulmões a reagirem à poluição. Abri a janela e pus a cabeça de fora. Estava cansada. Muito cansada. E com uma ânsia inquietante de sentir algo que fosse indiscutivelmente Português, que me desse um beliscão interior e me convencesse de que estava realmente de volta a casa. A conversa de circunstância com o taxista não teve esse efeito. Parecia antes um dos delírios que tinha tido naquela cama de hospital, já adaptada à forma do meu corpo, no Gautham Hospital, em Cochim. Estava há 6 dias fechada num quarto que, se não fossem as baratas e osgas, podia ser um quarto em Portugal. E houve momentos em que achei mesmo que era.

O ar que eu inspirava era tão puro, as ruas tão silenciosas, o céu tão azul, que me comovi. O taxista calou-se e observava-me do espelho retrovisor. E eu não queria acreditar que já não estava na Índia. Ainda há umas horas atrás (provavelmente umas 40), estava a jantar num restaurante maravilhoso, no rooftop de um prédio altíssimo, no meio do caos de Bombaim, a saborear as quatro semanas de viagem que tinham passado. E, há menos algumas, a dormir numa cama improvisada no aeroporto do Dubai, com uma manta e uma almofada roubadas subtilmente à primeira classe do meu voo da Emirates e já contaminadas com o cheiro daquele repelente intragável que comprei numa espécie de farmácia de praia em Goa.

Nem quando cheguei à minha casinha, tão imaculada (e sem bichos!), consegui acreditar que tudo aquilo tinha acabado. No sofá, ainda estava espalhada alguma roupa de Verão que, à última, tinha decidido não pôr na mala. E, em cima da mesa, estava despejado o conteúdo da minha carteira, desnecessário para uma viagem de mochila às costas. Senti simultaneamente saudade e repulsa. E fiquei assim, sentada no sofá em silêncio, rodeada de malas e sacos, enojada com o cheiro do repelente que agora se fazia sentir ainda mais, em contraste com o cheiro-a-nada da minha casa imaculada. Eram 4 da tarde.

Tinha dito ao mundo que chegava no dia 23. Quando olhei para o telemóvel, às 7 da tarde, percebi que ainda era dia 22, e fiquei contente por poder saborear mais 24 horas “invisível”. Liguei ao Zé – que àquela hora devia estar a sair do trabalho – cumprindo, assim, quase sem me aperceber, um ritual diário de um dia de semana normal em Lisboa. E, como em qualquer outro dia do ano, o Zé veio em meu auxílio e levou-me à “nossa” tasca. Ainda nem era hora de jantar e já estávamos a beber vinho tinto carrascão, a comer uma sopa de legumes e um bitoque com ovo! Tentei não me lembrar que, poucos dias antes, tinha estado internada por causa de uma infecção grave nos intestinos…e comi como se não houvesse amanhã.

O Zé estava igual. Também só tinha passado um mês. E, ignorando o meu visível cansaço, fez-me uma proposta completamente indecente e irrecusável: “Bora aos fados?”

Entrei em Alfama como quem entra num bairro lisboeta pela primeira vez, fascinada com a beleza e intrigada pelos becos e as escadinhas. Ainda era cedo e na Mesa de Frades ainda não tinham começado a cantar. Sentados numa mesinha escondida, pedimos mais um jarro de tinto da casa e fomos conversando lentamente, como um casal de velhinhos.

Comecei a lembrar-me de como tinha desejado estar ali, quando estava ligada às máquinas, naquela cama de hospital. Sem internet, sem televisão e sem iPod, a única coisa que me ia fazendo companhia eram os fados cantados pelo Zezé e pelo Rodrigo, gravados por mim no iPhone em noites invernosas, naquela capelinha de Alfama onde agora bebia, melancólica, o meu vinho.

“Olha, acabou de entrar o Zezé”. De repente a melancolia desapareceu e senti-me secretamente entusiasmada. Esperámos mais uns minutos antes de sair do esconderijo e cumprimentar os suspeitos do costume que entretanto tinham chegado. Da minha parte, exigia alguma preparação, especialmente para conseguir disfarçar a minha felicidade não contextualizada.

O cansaço disfarçou tudo o que havia a disfarçar e, felizmente, até inibiu os que estavam à minha volta de me fazer a pergunta mais temida da noite: “Como é que foi?”.

Cantou-se o fado e cantou-se muito bem! Tão bem, que só saí de Alfama às 4 da manhã. E foi algures no meio daquela noite, já no limite do meu cansaço, que senti finalmente que tinha chegado a casa.

Passou um mês desde esse dia da minha chegada. Sinto-me finalmente preparada para, com a distância necessária, olhar para a minha viagem à Índia e para a viagem interior que ela implicou.

Stay tuned and be glamourous!

Advertisements
Chegada da Índia: um mês depois

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s