Invicta, por António Cabral

É deste quadrado, à beira-mar plantado, que sinto em mim a necessidade de deixar o meu testemunho exarado, ainda que de forma virtual, para que a minha consciência me deixe finalmente em paz de vez, para poder assim voltar à rotina do quotidiano comum a que todos nós estamos habituados.
Estes 12 dias de viagem foram demasiado marcantes para quem, como eu, vive intensamente este tipo de viagens e tem a sorte de poder encará-las, não da perspectiva da despesa, mas sim do investimento.
Foram os cheiros, as cores, as gentes, o grupo, entre outros impossíveis de anotar neste pequeno texto, que me levaram a escrever, para que este blog possa perpetuar aquilo que o meu coração já perpetuou.
A primeira grande impressão é o da saída do aeroporto. O suor que transpira pelo meu corpo, fruto do sol abrasador e da humidade relativa que se faz sentir em Bombaim, é terrível e fez-me desde logo refletir nas duras condições que os Portugueses enfrentaram quando em 1509, data da chegada destes a esta cidade, sentiram ao desembarcar ali. Bendito seja quem um dia inventou o ar condicionado, qual máscara de oxigénio para quem, como eu, sofreu com estas condições climatéricas rigorosas. Ainda que sem o cheiro nauseabundo da poluição moderna, as condições para quem um dia entrou ali não eram nada fáceis. Bravos foram aqueles Portugueses que um dia decidiram enfrentar estas adversidades, contra tudo e contra todos, por uma causa nobre. Ganharam o meu eterno respeito por tal feito.
Ulteriormente, e à medida que íamos avançando por essa Índia fora, o infindável verde das florestas, mata, selva ou o que se queira chamar. Demasiado evidente para a ignorância do nosso olhar. Nem a mais potente das máquina fotográficas que registou alguma desta vida silvestre poderá um dia mostrar aquilo que os meus olhos viram.
Das gentes. A vil condição humana que os deixa, pelos relatos de quem lá vive, com menos de 2 euros por dia, contrapõe-se com o sorriso sincero de quem nada mais tem a perder. À frustração de não receber uma esmola do turista, responde automaticamente um aceno e um sorriso para o autocarro, na esperança de que o próximo pedido seja bem sucedido. Se calhar não o será, mas o que resta senão tentar um novo grupo de turistas que possa por ali passar? Decerto que ir para uma “casa” com 4 paredes mal fixadas no chão e um telhado improvisado no meio de uma das milhares de “slums” não trará o pão que saciará a sua fome. Esta injusta luta pela sobrevivência não espera por ninguém e portanto há que continuar a batalha, pois imagino que a barriga destes pobres coitados já esteja a reclamar algo para comer, fará já muito tempo.
Obrigatório, claro está, é fazer-se menção ao trabalho dos nossos antepassados que ousaram um dia civilizar esta gente junto à costa indiana. A diferença choca em relação à Índia “não portuguesa”, mas pela positiva. Não sei bem explicar esta diferença, mas senti que a pobreza aqui está como que trabalhada. Vemos pessoas que pouco terão nas suas vidas, miseráveis quiçá, mas que possuem algo que a maior das riquezas nunca poderá comprar: a Fé. A missa rezada em Português, para Indianos porventura bem mais portugueses do que muitos que se arrogam de se chamarem lusitanos e que encontramos diariamente entre nós em Portugal continental e insular, comove. Os missais e cancioneiros escritos na língua-mãe, que para os mais esquecidos é a 5a mais falada do mundo, ainda que com erros perdoáveis, contêm canções que desde criança fomos habituados a entoar, atestam o trabalho de cerca de quinhentos anos que nós Portugueses fizemos aqui, e que a História nunca poderá apagar, ainda que esses interesses comerciais que invadem hodiernamente os livros de História por esse mundo fora o queiram mudar. Com todos os antigos Portugueses com quem tive o privilégio de ter “dois pauzinhos de conversa”, atesto o carinho muito especial que nutrem (ainda) por Portugal. Sinceramente, dava-me vontade de levá-los um a um, cada um deles, na minha mala para um Portugal que já foi deles e que por politiquices mesquinhas deixou de o ser. Infelizmente, o Portugal do pós 25 de Abril não os merece, para além do facto de que a Emirates só me deixa levar 33 kilos de bagagem… Ficaram lá, resta-lhes, no fim, o passaporte que guardam orgulhosamente, e que, com esse orgulho do que é ser Português, nos mostravam. E como a palavra Saudade é uma palavra exclusivamente portuguesa, falavam com saudade desses não tão longíquos tempos em que os Portugueses ali estavam. Tempos de alegria, segundo os mais velhos.
Por último, não podia deixar de perpetuar a alegria do grupo. Cada um quis, sonhou e foi. E como pessoas tão diferentes e de sítios tão distantes – uns de Lisboa, outros do Porto, ou até de Londres – conviveram e se uniram num propósito comum: o de conhecer a tão misteriosa Índia Portuguesa!
Coisas tão simples como a mítica “Auto-Contagem” uniram aos poucos até os mais tímidos, num grupo que, na sua heterogeneidade, conseguiu respeitar-se e construir novas amizades, algumas que poderão, quiçá, perdurar por muitos e muitos anos.
No fim, o sentimento de realização e certeza de que nestes tempos de crise que vivemos, muita coisa nos pode ser tirada hoje. porém, uma certamente não nos tiram: esta experiência de mais de 6000 km à descoberta dessa magia da Índia de que todos ouvimos falar. Confesso que já percorri muitos países, espalhados por 4 continentes distintos, e posso afirmar, com a maior das seguranças, que a Índia Portuguesa tem algo que nenhuma outra zona do globo tem. E é fácil inteligir que, sendo Português, esta sensação é muito, mesmo muito forte.
É com o patriotismo em alta, de quem testemunhou a obra dos nossos corajosos compatriotas, que erigiram casas, fortes e igrejas, arriscando a sua vida pela Nação, que regresso a Portugal.
É com orgulho que hoje percebi o porquê de, há gerações passadas, nos aventurarmos para alto-mar durante meses a fio sem ver um único pedaço de terra firme. É com emoção que um dia poderei contar aos meus filhos e netos, quando a herança portuguesa desaparecer totalmente, engolida pelos interesses indianos ou estrangeiros, que vi com os meus próprios olhos o legado de 500 anos, que hoje, em pleno século XXI, ainda subsiste num país tão longe do nosso.
Que Deus abençoes toda aquela gente e lhes dê as Suas maiores graças.
 
Remato com a sensação de uma viagem absolutamente inesquecível mas que ninguém ouse dizer irrepetível, pois temos a sorte de saber de antemão que as marcas do Império Português estão espalhadas por esse Mundo fora.
Resta-nos fazer as malas e partir à procura dele, tal e qual como os Portugueses fizeram há 500 anos atrás.
Antonio Maria Cabral
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