Damão, por Alberto Saavedra

No ano de dois mil e treze, aos 28 dias do mês de Abril, o dia começou cedo. Tinha sido combinada uma missa especial em Português para o nosso grupo. Malogradamente, a comunicação Lisboa-Bombaim-Damão não funcionou e às 7:45 a Igreja de Nossa Senhora do Mar abriu as suas portas, mas não as da liturgia dominical.

Belíssima igreja, decorada com barquinhos suspensos e dedicada a Nossa Senhora do Mar. Foi construída por marinheiros Portugueses em 1910, após terem sido salvos de um iminente naufrágio. O padre Nolasco, jesuíta oriundo de Goa e recentemente destacado para Damão, convidou-nos então para a almejada missa em Português, ao entardecer.

Debaixo de um calor abrasador e húmido percorremos, sem pressa, o imponente Forte de São Jerónimo (em cujo interior as crianças jogavam cricket). A porta principal da fortificação esmaga-nos com as figuras de dois gigantes. Cada um segura uma mó e um pergaminho com os seguintes dizeres, numa alusão a incorruptabilidade dos guardiões do forte: “Quem por aqui quiser entrar, com esta mó há-de pagar: que eu e o meu companheiro a vigiamos sem dinheiro”.

Seguidamente visitámos as Igrejas do Bom Jesus e da Nossa Senhora dos Remédios, e as ruínas do que em tempos fora um esplendoroso mosteiro dominicano.

De tarde, galgamos as águas do rio Daman Ganga que separa a margem direita de Moti Daman (Grande Damão) da margem esquerda de Nani Daman (Pequena Damão), e fazendo a redescoberta desta terra por barco, volvido meio milénio da chegada de Diogo de Mello a estas paragens.

Ao final da tarde, e como combinado, comparecemos em peso na modesta Capela de Santa Cruz, onde, de acordo com o relato que me foi confidenciado por uma devota, está uma relíquia com um pedacinho do Santo Lenho.

Quando um ocidental visita a Índia choca frontalmente com o caos, dentro e fora de si. Trata-se de uma país exuberante e repleto de contradições, indicifrável na sua teia de nomes, castas, línguas, deuses e cores.

Mas com a missa fomos envolvidos no terno abraço do Padre Nolasco e da comunidade Indo-Portuguesa, que sente saudade de um lugar que muitas vezes nunca conheceu. E foi este laco místico de comunhão que nos permitiu transpor as barreiras da distância e dos desentendimentos. No final, com o pano de fundo da decoração da capela, com motivos de planetas e constelações psicadélicas, conversámos na língua de Camões com o Sr.Padre e com as irmãs Noronha, a Senhora Dona Dulce e a Senhora Dona Antónia.

É pena que o Português já só seja falado por quem estudou antes da invasão, de 1961, destes territórios de Além-Mar. Teria sido preferível uma transição pacífica de soberanias, pois o corte de relações entre Portugal e a União Indiana exterminou o futuro de uma língua que durante 500 anos foi a Portuguesa. Diz-nos Agostinho de Hipona que o mundo e um imenso livro no qual aqueles que nunca saem de casa lêem apenas uma página. Em Damão, mais uma página do mundo foi lida. E a língua dessa pagina era a Portuguesa.

Alberto Saavedra

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