Bombaim, por Francisco Figueiredo

“A viagem que vão fazer demorou 8 meses ao Vasco da Gama”. Foi com este sábio aviso que começou a nossa viagem para a Índia. Com o aviso de quem sabia que íamos para um sitio bem longínquo, no tempo e no espaço. E na essência.

E quando chegámos, menos de 24h depois, o choque foi grande. Começou pelo calor, pela humidade, e por um cheiro estranho. Calor e humidade que, no início, colam a roupa ao corpo, e nos põem a suar em bica. O cheiro estranho não conseguimos identificar. Parece a lixo, mas não é. Parece a terra húmida, mas não é.

Impregnados pelo mistério deste cheiro, vamos continuado. Vamos entrando pela Índia dentro, como quem se deixar levar pelo curso de um rio. Começam, então, a aparecer alguns edifícios, quase todos degradados e castanhos. O castanho é, de resto, a cor predominante. Tudo parede sujo, tudo está sujo. Depois surgem uns edifícios estranhos, e surgem mais, e mais, e mais. É um sem fim de edifícios, onde não acreditamos poder viver gente. Mas vive. Vive porque, quando restabelecidos do impacto causado por este choque inicial, começamos a olhar à volta e começamos a ver pessoas, a ver carros, a ver muitos carros, a ver muitas pessoas, a ver muitos carros e muitas pessoas, muitos mesmo, e não conseguimos perceber como é que os carros não vão uns contra os outros.  Nem as pessoas! Que são castanhas… É então que percebemos que ali tem que viver gente, e que aqueles edifícios estranhos são, afinal, bairros de lata, castanhos… E do meio deste castanho emerge, por todo o lado, uma vegetação pujante, densa e verde. Verde acastanhado, claro.

Respiramos este caos que nos entra pelos pulmões dentro. Parece cheirar mal, é sujo, é porco, é pobre, miserável até. É degradado e degradante… Mas é bonito. É uma beleza diferente, uma beleza que não pode ser restringida ao seu sentido mais estético. É uma beleza que vai para além do estético, e, sobretudo, do estático. É a beleza da vida. É a beleza do sorriso que, em cada cara, nos confronta. É a beleza do movimento, da procura e da luta pela vida. É a beleza de quem vive com tudo, porque não precisa de nada. É a beleza que salpica com uma imensidão de cores o fundo castanho.

E, assim, damos conta de que não cheira mal mas também não cheira bem, “cheira a Índia”.

Francisco Bramcaamp de Figueiredo

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Bombaim, por Francisco Figueiredo

2 thoughts on “Bombaim, por Francisco Figueiredo

  1. Pah que giro.. Quando fui à India aterrei em Bombaim também.. Acho que descreves muito bem exactamente aquilo que guardo na minha memoria. Lembro-me que foram 45 minutos do aeroporto até ao gate sem falar. Só vi os tais edificios, os corvos, o lixo… Perguntei o que estava alí a fazer, onde estavam as cores da India? As cores limitam-se aos saris e bijutarias das mulheres. E a razão de estar ali era a de viver algo diferente. Sentir coisas que nunca senti. Sentimentos estranhos de diferença e de choque… que depois de passarem nos deixam viver esse pais de uma maneira única e inesquecível. Para mim foi a melhor viajem da minha vida. Aproveitem !!

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