Não fomos turistas, fomos Peregrinos, por Margarida Sottomayor

Foi há pouco mais de uma semana que chegámos da Terra Santa. Não fomos turistas, não fomos “viajeiros” (como dizia o nosso guia), fomos Peregrinos. Visitámos muitos lugares santos e com a orientação espiritual do P. Carlos Carneiro trazemos memórias muito bonitas que vão sem dúvida enriquecer as nossas orações, a vivência das missas e os nossos testemunhos de fé.

Uma semana não chega para interiorizar tudo o que vivi e rezei. Assim vou tentar resumir o que mais me marcou, com a consciência de que é muito difícil por enquanto pôr por palavras o que senti.

Surpreendentemente, nem sempre foram os lugares santos os que mais me fascinaram. Nunca saberemos se a Igreja da Natividade fica exactamente no sítio onde nasceu Jesus ou se foi naquela exacta pedra onde Jesus fez a multiplicação dos pães, mas isso é secundário, pois o que guardamos é o que o lugar evoca para nós, cristãos.

No entanto, talvez por isso eu tenha gostado tanto de estar e não de ir. Ir é mais distante, é chegar aos sítios ver e vir embora. Estar implica sentir o que se passa à nossa volta, deixarmo-nos imergir no que nos rodeia. Foi isso que senti em Nazaré, no Deserto e na cidade velha de Jerusalém.

Em Nazaré imaginei Jesus em criança a correr e a brincar na rua com os amigos. Senti-me mais próxima de Maria e de José que ali viveram em família, de forma humilde e educaram o seu filho. No Deserto percebi porque é que Jesus subia tantas vezes ao monte para rezar (de facto há montes a perder de vista) e a razão de aquele ser um óptimo refúgio para Ele estar só e jejuar. É um lugar inspirador e lindíssimo. E percorrer as ruas de Jerusalém e poder rezar uma via sacra exactamente no lugar onde ela aconteceu foi também especial. Apesar da agitação contemporânea daquelas ruas estreitas e cheias de comércio, é fácil ver Jesus percorrer as vielas com a cruz às costas, num sofrimento imenso, no meio de uma cidade que também na altura seguia a sua vida quotidiana.

Por fim, é impossível ficarmos indiferentes ao conflito israelo-palestiniano. Pensar em Belém é também pensar no muro que a separa de Israel e assim, a pedido das irmãs beneditinas que tão bem nos acolheram, peço a Nossa Senhora que Faz Cair Muros, que faça cair aquele muro e o muro dos corações de quem governa aqueles povos.

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Não fomos turistas, fomos Peregrinos, por Margarida Sottomayor

O nosso Testemunho, por Flora e António Pascoal de Carvalho

O sonho que habitava em nós há muitos anos, concretizou-se agora com a visita aos Lugares Santos que Jesus percorreu na Sua Terra.
Foram momentos marcantes que, robustecendo a nossa fé, nos enchem de satisfação e muita alegria pois, a partir de agora, sentimos que a leitura dos Evangelhos fica muito mais enriquecida com a visualização dos lugares que visitámos.
Tal enriquecimento foi, em muito, acrescido pela palavra a que já nos habituou o Padre Carlos Carneiro que, com a sua natural fluência deu à Peregrinação, tanto nas celebrações eucarísticas como em outros actos de oração e aprofundamento da fé, uma elevação espiritual merecedora da nossa maior gratidão. Que Deus o recompense Padre Carlos.

Como foi bom visitar o lugar onde Jesus nasceu e viveu, os lugares à volta do Lago Tiberíades/Mar da Galileia onde passou grande parte da Sua vida pública, para descer depois até Jerusalém, essa cidade sagrada, mítica e mística, tão desejada por todos, onde se entregou à morte na Cruz, num acto de total aceitação e de puro amor por nós, para nos salvar, e não como ainda erroneamente se pensa que foi para satisfazer a justiça de Deus-Pai (vd. “Alegria de Crer e de Viver”, de François Varillon, S.J.- Editorial A.O. – Braga, fls 88 a 130).

Claro que num outro contexto, não podemos deixar de manifestar o profundo choque e enorme tristeza que nos causou o muro que rodeia a cidade de Belém, berço da cristandade, que os homens “erradamente” levantaram, pois melhor seria que tivessem construído pontes de diálogo, de humildade e compreensão, cumprindo assim o Mandamento Novo que Jesus nos deixou.
Tristeza que só a esperança cristã pode suavizar, quando vemos povos de três religiões que, adorando o mesmo Deus, dão ao mundo um testemunho tão negativo e contrário a esse mesmo mandamento que nos aponta o dever de nos amarmos uns aos outros como Jesus nos amou.

Por fim, gostaríamos de terminar este nosso testemunho com mais duas referências:
A primeira vai para o grupo de 60 pessoas em que tão bem nos integrámos, onde o relacionamento fácil e afável entre todos foi evidente, para além do acolhimento muito especial dos elementos mais jovens em que a natural demonstração dos valores que partilham com tanta alegria deram ao grupo aquele toque de juventude que muito ajudou. Olá juventude. Bem hajam!

A segunda referência vai para a organização impecável da peregrinação, em que não podemos deixar de enaltecer as qualidades de liderança da Leninha, sempre atenta aos mais pequenos pormenores, preocupada em, perante as dificuldades surgidas, escolher com serenidade as alternativas que melhor pudessem servir o espírito da peregrinação. Sempre gentil e cheia de energia, mesmo quando o cansaço era evidente, nunca a alegria faltou nem deixou de nos ser transmitida através da sua viola e dos seus cânticos (basta lembrar o 1.º ensaio do “Dona Nobis Pacem”). É que, liderar um grupo de 60 pessoas de modo tão eficiente como o fez não é tarefa fácil! Por isso lhe manifestamos mais uma vez o nosso reconhecimento.

Coimbra, 28 de Fevereiro 2015

Flora Maria e António

O nosso Testemunho, por Flora e António Pascoal de Carvalho

Apreciação breve da Peregrinação, por Margarida Mena

Foi tudo muito bem orientado, com rigor e muitos pormenores. Embora tenha sido a terceira vez que ia a Israel, foi como se fosse a primeira, pois a espiritualidade com que a vivi, ultrapassou todas as minhas expectativas! Envolvi-me e gostei de todos os momentos e vibrei com emoção em diversas ocasiões. Obrigado à Leninha e ao Padre Carlos Carneiro.

Apreciação breve da Peregrinação, por Margarida Mena

Não são personagens de um filme, por Pi Gaivão

Visitar a Terra Santa é uma graça única, mas o que mais me marcou nem sempre foi conhecer os lugares santos, mas sim as pessoas que neles vivem.

Israel e os judeus, e a Palestina e os muçulmanos dividem estes territórios, enquanto que os cristãos vivem nestas terras quase por favor. Ao visitar Jericó e Belém, tive a oportunidade de conhecer as comunidades cristãs e perceber o quão poucos são: em Jericó 500, 220 católicos, em Belém 1%.

Não é o número que me impressiona, mas sim as condições em que vivem. Estas pessoas sofrem muito, num ambiente de grande insegurança, com alguns dos seus direitos muitas vezes esquecidos. Um exemplo bem visível são as lojas dos cristãos que não têm montras, as que existiam foram fechadas, e as portas reforçadas.

E estas pessoas não são personagens de um filme, elas existem, têm famílias. Mas mantêm a sua Fé, lutam para que não se perca e para que permaneça.

Peço a Deus por eles! E agradeço a possibilidade de os ter conhecido!

Não são personagens de um filme, por Pi Gaivão

Belém, por Rita Coelho

Para se entrar em Belém tem de se atravessar um muro. Um muro com 12 km de altura, com 700 km de extensão, e que continua a ser construído.

Para se atravessar este muro, tem de se atravessar uma portagem estreita, vigiada por homens como nos filmes de guerra, armadilhados e desconfiados.

Para atravessar este muro até Belém, não se pode ter nascido do outro lado do muro. Para eu chegar a belém, houve quem ficasse à porta do muro à minha espera.

Ao chegar a Belém não se entende nada. Não se entende quem é quem, quem é o quê, quem faz o quê. Não se entende quem pensa o quê, quem reza a quem, quem espera o quê.

Em Belém não consegui encontrar o olhar de quem passava, não consegui sentir quem observava, não consegui comunicar com quem estava. Em Belém, senti-me perdida na multidão.

Em Belém, não se entende nada. Não se entende para onde vão as pessoas, para onde caminha a história. O passado tem tantas leituras, o presente esconde mil desventuras, o futuro? escreve-se a cada segundo. Em Belém, senti-me perdida no tempo.

Em Belém, não se brinca aos cristãos. Porque somos apenas 1%. E adentramo-nos na guerra. e sentimo-nos pequenos, uma minoria, em extinção.

Em Belém tem-se medo. Medo que um dia Jesus pare de nascer. Ou melhor, que Jesus nasça e, um dia, ninguém dê por nada.

Depois de Belém, não queremos adormecer./ Depois de Belém, não podemos adormecer. Depois de Belém, temos que ficar a ajudar Jesus a nascer.

Em Belém não se entende nada. Porque foi nesta Belém que Jesus nasceu. Porque é nesta Belém que Jesus nasce. Porque não há outro modo de nascer Jesus.

Não há outra Belém. Não há. Há esta, hoje.

Em Belém não se entende nada.

Em Belém, resta-nos silenciar e seguir a Estrela. A Estrela cá dentro.

21.02.2015

Belém, por Rita Coelho